a Bombinhas em Foco ( 17/12/2017 ) a

Zimbros guarda verdadeiro tesouro ecológico

Os nativos ainda olham com um pouco de desconfiança para os jovens de camiseta verde e mochilas nas costas que circulam pelas praias e pela mata da região de Zimbros, em Bombinhas, no Litoral Norte. Temem que a presença dos biólogos e pesquisadores da Ufsc (Universidade Federal de Santa Catarina) represente algum tipo de proibição futura às atividades básicas de subsistência da região, especialmente a pesca e a maricultura. Mas, ao percebê-los se empenhando para identificar um novo animal ou indignados com o lixo deixado pelos visitantes e com a destruição das trilhas, muita gente já começou a entender a missão do grupo, hoje composto por quase 70 pessoas. O morro de Zimbros é um tesouro verde no coração de uma das áreas turísticas mais desejadas do País. Os verdinhos, como já são conhecidos os pesquisadores, um verdadeiro batalhão de anjos defensores da natureza, embora eles prefiram não abraçar esse rótulo.

O trabalho dos pesquisadores é construir um plano de manejo para a região, reconhecida como Arie (Área de Relevante Interesse Ecológico). Uma missão que deve proporcionar benefícios para os ribeirinhos, no tocante à conservação do patrimônio natural, que sozinho já atraí turistas e no debate da sustentabilidade econômica, que é o que pode garantir que toda a comunidade lute pela preservação de uma natureza convertida em seu principal sustento. O projeto está praticamente na metade, segundo explica a bióloga Erica Naomi Saito, que atua na pesquisa da fauna na área de répteis e anfíbios. O debate socioeconômico é o próximo passo do plano de manejo. “Vai avaliar a situação e definir o que pode ser feito, aliando o progresso com a natureza”, comenta.

Por meio de oficinas e reuniões, os pesquisadores também pretendem encaminhar a criação do Conselho Gestor da Arie, que deve pavimentar o caminho para a interação entre a comunidade e a conservação ecológica da região. “Precisamos organizar alternativas de renda, porque na hora que a região for sustentável economicamente, toda a comunidade vai protege-la”, acrescenta o biólogo Guilherme Willrich, que atua na pesquisa das aves da região.
Boa parte do morro e da área costeira de Zimbros tem mata em recuperação. Dentro da Arie estão quatro praias que só podem ser acessadas pelos visitantes depois de longas trilhas e caminhadas que os ecoturistas consideram como de média dificuldade. As praias do Cardoso, Lagoa, Triste e Vermelha são praticamente desertas, com areia muito fofa e grossa e água de excelente qualidade. Tanto que estão rodeadas de fazendas de criação de ostras e mexilhões – uma das atividades econômicas mais fortes da região.

A água doce também é abundante e escorre do morro de Zimbros para a praia. Chega a formar lindas lagoas, que nem parecem fazer parte de um cenário litorâneo tradicional. A diversidade, segundo Willrich, é um tesouro dentro do tesouro. Em poucos locais do País se pode encontrar a vegetação de restinga, a lagoa de água doce, a mata e o mar. E tudo tão perto e tão interligado.

A riqueza também está nas espécies de animais. Os pesquisadores já estão trabalhando em pelo menos 13 grupos de fauna. “Talvez essa região seja a única do Brasil com um levantamento dessa amplitude”, retoma Erica. Somente entre répteis e anfíbios, já foram catalogadas mais de 25 espécies. Entre as aves trabalhadas por Willrich são mais de 156, sendo verificadas duas ameaçadas de extinção na região: o Jacú-pato e a Jucupemba e uma ameaçada nacionalmente, a Maria da Restinga.
Caminhando pelas trilhas existentes a partir das praias é fácil encontrar animais de hábitos diurnos, como alguns répteis e pegadas que definem a presença tatus e tamanduás, de pequenos felinos e de parentes dos cães como o Graxaim. “Numa visita noturna podemos perceber muito mais animais, que tem hábito de circular nesse período. A atividade é muito mais intensa”, complementa Erica.

Sem nenhuma fiscalização ambiental, também é possível se deparar com os problemas causados pela presença do homem. Animais, como repteis, por exemplo, são mortos à pauladas constantemente pelos visitantes ou atropelados por motocicletas de enduro. Treinos de cross-country tem provocado o aparecimento de verdadeiras crateras e erosões, além do alargamento das trilhas, com forte impacto na flora nativa e do atropelamento de animais. Na área também é encontrado lixo e restos de fogueiras deixados pelos visitantes – as mesmas que podem ter causado o último grande incêndio no morro, no final do ano passado.

A fiscalização da Arie é um sonho das equipes de pesquisadores, assim como a interligação entre o verdadeiro mosaico de unidades e áreas preservadas da chamada península de Porto Belo. Essa ligação é considerada fundamental para a circulação das espécies – para que não se formem as chamadas florestas vazias, quase sem a presença de fauna.

Do ponto de vista da principal atividade econômica da região, o turismo, a preservação ambiental é uma verdadeira caderneta de poupança. Quanto mais a conservação e a preservação forem aplicadas, mais a região será desejada e procurada por visitantes de todo o Brasil. Aos nativos resta aproveitar o conhecimento dos “verdinhos” e apostar nas alternativas econômicas mais adequadas para o tesouro verde de Zimbros.



Fonte: Notícias do Dia (Tijucas-SC)

 

 

 

 

 

 

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