a Bombinhas em Foco ( 25/06/2017 ) a

Na toca do lobo

Perdi na conta dos dedos o 31 de dezembro comemorado em Blumenau. Faz décadas que vivo a virada do ano nas mais variadas praias catarinas. Não vou mais manter esta tradição. Este ano em crônica no início de janeiro – Virada no litoral – menti. Passei aqui. Mas fui tão convincente que minha mana Lígia, de Floripa, me telefonou, brabinha, pois acreditava que eu estando na Ilha não dei sinal de vida.

Decididamente, pretendo receber o novo ano aqui, na minha toca do lobo, fincada numa colina verdejante do Garcia. Gosto de lobos, simpatizo com eles. Afinal, são parentes dos cães, apreço meu desde menino. Como lobo perde o pelo, mas não perde o vício, vou vivendo a maior parte dos meus dias neste pedaço de chão.

A decisão corre por conta da idade regada a comodismo total. Porque, quando guri, o mar sempre me fascinou. Nascido em plena serra, Rio do Sul, frio dos diabos, sempre me arrepiei com o litoral, a ponto de ter na mente uma frase do pintor, também poeta, Di Cavalcanti, citando um autor francês: “La mer toujours recommencée”.

De calças curtas, amorenei-me na “zona norte da cidade, residência da cidade”, ou seja, do Estado. Piçarras (nome comprometedor, na opinião de uma amiga torta de ideias maldosas), sofisticada, virou balneário duns tempos pra cá, imitando sua concorrente, Camboriú. Seguem-na a outrora deserta Itajuba, e Barra Velha, enigmática, entre uma lagoa e o mar.

Inda pequenote, frequentei Itapema, na época modestíssima, sem luz elétrica e água encanada. Atualmente, é praia das mais aprazíveis, com suporte de duas companheiras de extensão e de agito, Meia Praia e Perequê.

Na minha praia predileta não tinha nada disso até pouco tempo. Daria para imitar Adão e Eva, não fosse um e outro curioso a botar a butuca investigadora no nosso modo de (não) se vestir. Passando pela centenária Porto Belo, com um espectro de pirata a cada esquina, vencendo o morro que leva a Bombas e Bombinhas, alcança-se o paraíso: a baía de Zimbros. Dão-se as mãos seis indescritíveis praias: a própria Zimbros, Canto Grande, Morrinhos, Tainha, Conceição e Mariscal. Tanta beleza de encher os olhos, faz-nos aceitar os versos de Caymmi: “É doce morrer no mar, nas águas verdes do mar”.




Fonte: JORNAL DE SANTA CATARINA (Blumenau – SC)

 

 

 

 

 

 

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