a Bombinhas em Foco ( 18/11/2018 ) a

Zimbros e a Farofagem

Dizem que a praia é o espaço mais democrático que existe. Naquela faixa de areia, pisam milionários, pobres, doutores em qualquer coisa, analfabetos que sabem muito mais que a média (pelo menos os analfabetos que conheci sabiam). Naquela água qualquer um pode pegar um jacaré, tomar um caldo, o filho de qualquer um pode brincar de castelos de areia, ou surfar numa prancha de isopor ou numa feita com a mais alta tecnologia. Há uma certa igualdade restrita à faixa de areia.

No litoral catarinense, Bombinhas é um dos municípios com litoral mais exuberante que conheço. A proximidade da montanha com o mar tornam o lugar um labirinto de morros e praias sempre surpreendentes, a cor do mar quase agredindo os olhos de tão verde. Meu lugar preferido sempre foi a Praia da Tainha, praia de difícil acesso, mas que compensa qualquer trabalho em se chegar lá. Na última vez que fui a Bombinhas, resolvi não ir à Praia da Tainha, e sim investigar outros cantos ainda não visitados. Encontrei no final da praia de Zimbros um canto diferente de tudo que tinha visto até então. É onde quero chegar com esse relato e essa introdução toda.

As praias de Bombinhas são democráticas, como todas as praias em geral, mas eu não tinha encontrado por lá ainda os famosos farofeiros, gente que não tem casa, não tem dinheiro para comer nos restaurantes, mas tem vontade e direito de ir à praia como qualquer um. Gente que se abanca por ali mesmo e passa o dia se divertindo, comendo, brigando com os filhos fujões, com os maridos espaçosos, com os biquínis pequenos das mulheres. Enfim, nas praias que frequento mais normalmente, São Francisco do Sul e Barra do Sul, eles, (quer dizer, nós), somos mais frequentes. No mundo chique de Bombinhas, os farofeiros que encontrei estavam escondidos num canto de Zimbros. Bem lá no final, debaixo de árvores, com seus frangos assados, suas caixas de isopor, os filhos, a falação alta e mais toda aquela desordem efusiva que os ricos não conseguem ter.

Quando vi aquele universo separado dos demais, percebi que a democracia da praia é relativa, funciona mais para o ir e vir do que propriamente para outros tipos de comportamento, ainda mais num lugar visivelmente explorado pelo comércio, em que qualquer espaço próximo da praia tende a ser pago, e bem pago, seja para sentar, seja para estacionar. Nada contra a exploração comercial de um lugar turístico, mas, às vezes ultrapassa as raias do bom senso. Por isso, fiquei lá naquele canto algumas horas, a vista era linda, havia uma pedra que servia de trampolim para mergulho, tinha sombra à vontade e gente divertida, farofando, dormindo, acampando, falando mal de alguém, (infelizmente não peguei a conversa toda, mas em nada diferia de qualquer família que fala mal um dos outros), sendo feliz porque o dia era para ser feliz e todos tínhamos o direito e a chance da felicidade.

Rubens da Cunha
www.clicrbs.com.br/anoticia


Fonte: A NOTÍCIA (Joinville – SC)

 

 

 

 

 

 

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