a Bombinhas em Foco ( 18/11/2018 ) a

O cão assassino

Há quem goste de praia também no inverno. Sem vento e chuva, tem-se a impressão de que o ar, a paisagem tornam-se prateados. Há a vantagem ainda de se ver pouca gente. Só os nativos, como dizem. Uns alôs simpáticos de bons dias nos fazem, na imensa solidão, constatar que ainda existem seres humanos no mundo.

Aproveitei, como professor, as férias de julho, para passar umas semanas em Canto Grande. Chovia que nem doido. No ônibus, chegando a Porto Belo, vi que a solução era apanhar um táxi. O motorista informou-me que não seria possível fazer a corrida. Na época, a estrada para Bombas não era pavimentada e ela e o morro de Zimbros tinham virado um atoleiro só.

A possibilidade de hospedar-me em um hotel foi descartada, tanta a vontade de chegar no paraíso. Não esperei a melhora do tempo e, mesmo me recuperando de uma perna quebrada, fiz a viagem a pé. À noite, sem sono, lá pelas 10 horas, de lanterna em punho (não havia energia elétrica ainda), caminhei até o bar do Lauro, apelidado de Capitão. No meio dos bons quilômetros, arrepiei-me ao ouvir um barulho no mato. Mais ainda ao perceber um enorme cão policial a cheirar-me. Para surpresa minha acompanhou-me noite adentro.

Ao amanhecer, vi que tinha dormido na porta da casa, ansioso por afagos. No banho de mar em Mariscal, enfrentou as ondas gigantes para estar ao meu lado.

Foi companheiro fiel em todas as andanças por outras praias: Conceição, Tainha, Bombinhas, Quatro Ilhas, Vermelha e mais e mais.

Quando voltei a Blumenau, lamentei não estar de carro para trazê-lo comigo.

E este desejo ocorreu depois deste episódio: numa manhã, tomando umas cervejas no Quiosque do Maneca (que seria o primeiro prefeito do município), ouvi dele:

– Gervásio, sabes de quem é este cachorro? É do farmacêutico que mora aqui em frente. Este bicho é um demônio. Ataca pessoas na rua, toda vez que foge da corrente. Não entendo como não tenha rosnado pra ti, ainda.

Um ano depois, perguntei ao Maneca como andava meu amigo animal. Tinha sido abatido a tiros ao atacar um ciclista. Cão assassino? Comigo não, violão!

GERVÁSIO LUZ


Fonte: JORNAL DE SANTA CATARINA (Blumenau – SC)

 

 

 

 

 

 

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